Um Oceano Delas | #11. Pra pescaria ficar melhor
PRA PESCARIA FICAR MELHOR
O senso de urgência que me acompanha desde jovem foi muitas vezes questionado pela tradição filosófica da impermanência. E, vira e mexe, uma frase volta a dançar comigo: “Daqui a cem anos ninguém vai se lembrar da gente: Estaremos todos mortos”. Apesar de um século ser tempo a perder de vista, somos bem capazes de produzir algo que vai ressoar no futuro, sim.
A poeta francesa Jane Catulle Mendès deixou o melhor slogan que o Rio de Janeiro poderia ter: Cidade Maravilhosa é ou não é super atrativo para moradores e turistas? Cronista afiadíssima sobre a cidade, Júlia Lopes de Almeida contribuiu fortemente à existência da Academia Brasileira de Letras, e Gilka Machado assumiu para si mesma que a sua onda era escrever poemas eróticos num tempo em que a mulher não podia dizer que sentia prazer.
As três nasceram a tempo de serem pioneiras, como mostra o episódio do nosso podcast, que ainda fala en passant de outras autoras poderosas que foram esquecidas, como Narcisa Amália e Albertina Bertha, aproveitando os meses finais do Rio como Capital Mundial do Livro. Escute aqui!
Um Oceano Delas é a nossa carta feminista para o amanhã. Até hoje independente, temos a liberdade de tocar nos assuntos que nos interessam. Vamos testar episódios com a história e a opinião de mais mulheres do mercado editorial e episódios de entrevistas com grandes escritoras — um spoilerzinho: o próximo será com uma escritora carioca, jornalista, negra, de fala suave e potente que vem produzindo livros essenciais, com enredos antirracistas. Você tem 15 dias pra descobrir quem é!
Fizemos pequenas mudanças na nossa newsletter. Agora a entrevista se chama Papo de Proa, a agenda de eventos saiu, mas o nome era bom — Correnteza — e aproveitamos ele pras notas soltas, e a editoria sobre livros infantojuvenis virou Peixe Grande. Vamos ajustando a linha e o anzol pra pescaria ficar cada vez melhor.
Escute e leia Um Oceano Delas!
Por Monica Ramalho
A jornalista Ester Lima atua há três anos como assessora de imprensa da Academia Brasileira de Letras (ABL), equilibrando as mídias tradicional e digital. Ex-atleta, já entrou muito em campo como repórter, cobrindo as maiores competições esportivas do mundo, como os Jogos Olímpicos e Pan-Americanos.
Sempre gostou de ler e tem gasto mais horas diante de uma boa história, influenciada pela convivência com os imortais. "A assessoria de imprensa cresceu e inexoravelmente viramos também um pouco criadoras e produtoras de eventos, sugerindo pautas para palestras e outras iniciativas", disse. Leia a entrevista:
1. O que significa fazer assessoria de imprensa para uma instituição como a Academia Brasileira de Letras hoje? Quais são os principais desafios de comunicar tradição sem perder contato com o presente?
Atuar na assessoria de imprensa de uma instituição como a Academia Brasileira de Letras nos traz diariamente o desafio de encontrar uma linguagem que respeite a tradição literária e cultural e o legado da ABL, ao mesmo tempo em que se conecte com as novas formas de comunicação, principalmente com as redes sociais. Temos a missão de criar novos formatos de eventos que levem público à ABL, principalmente os jovens, sem esquecer da tradição.
O mais interessante para mim é que a assessoria de imprensa cresceu e inexoravelmente viramos também um pouco criadoras e produtoras de eventos, sugerindo pautas para palestras e outras iniciativas. E me sinto contemplada quando vejo que ações da assessoria de comunicação contribuem para a ABL ocupar seu espaço sempre importante na sociedade brasileira. Nada melhor do que ver nossas pautas ocupado páginas de jornais.
Fazemos uma assessoria proativa e temos a sorte de trabalhar com uma agência de mídias sociais, a STA, que tem uma galera jovem super animada e ligada no que há de mais atual nesse mundo. E o melhor, conseguimos a adesão digital dos acadêmicos - até o Tik Tok, que no início assustou um pouco, agora já é visto como importante — mas importante mesmo é falar que não seria possível fazer o trabalho que fazemos sem o apoio incondicional dos acadêmicos.
Uma coisa que muito me assustava no início era saber que não poderia cometer erros de linguagem. Imagina, trabalhar na ABL e não saber escrever! O cuidado tem que ser triplicado!
2. O que você tem lido? Como a leitura interfere no seu trabalho? Algum livro, em especial, deslocou a sua maneira de pensar o mundo — ou o seu mundo particular?
Desde que entrei para a ABL, há três anos, leio sem parar. O convívio quase diário com cabeças tão sensacionais e sensíveis como as dos acadêmicos é muito inspirador. E um aprendizado constante. Ultimamente, minha mesa de cabeceira anda com uma pilha de uns dez livros - o que não quer dizer que esteja lendo pouco, ao contrário. Ler é estimulante , quase um vício. Ter acesso aos ciclos de palestras – todas as terças e quintas - e ouvir debates no meio desses grandes pensadores do Brasil tem sido crucial para minha formação como cidadã, jornalista e pessoa.
Três livros marcaram minha vida: na adolescência, “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger, e “O encontro marcado”, de Fernando Sabino. Mas o primeiro livro que lembro de realmente ter entendido e gostado foi “Meu pé de laranja lima”, de José Mauro de Vasconcellos. Tinha 12 anos.
Mais tarde, apaixonada por um namorado fissurado por Eça de Queiroz, devorei todos os livros do autor português. O namoro acabou, mas Eça ficou em mim. “Os Maias” é um escândalo. Já nos tempos de ABL, li “A audácia dessa mulher”, de Ana Maria Machado; “Ana e a margem do Rio” e “O bruxo do contestado”, de Godofredo de Oliveira Neto; e “Os homens dos pés redondos”, de Antonio Torres. Sem falar nas poesias de Nejar, Secchin, Geraldo Carneiro, Antonio Cicero. Impossível não se apaixonar por todos.
3. Como você avalia o espaço ocupado pelas mulheres na comunicação e na mediação literária? Você percebe mudanças no modo como autoras, pesquisadoras e gestoras culturais têm sido lidas e ouvidas?
O espaço ocupado pelas mulheres na comunicação e na literatura tem crescido muito e reverbera na ABL – basta ver a eleição de duas mulheres nos últimos dois anos. Acho que principalmente na literatura, elas estão pedindo espaço - e conseguindo. Muitas atividades culturais hoje têm mulheres na liderança. Pesquisadoras, escritoras, gestoras culturais, com ideias inovadoras, estão agitando o meio cultural. O que não quer dizer que não haja ainda obstáculos a serem vencidos e um pouco de preconceito.
TERAPIA É PARA TODOS
Por Monica Ramalho
Quem tem a sanidade de fazer terapia conhece bem a dificuldade que é arrancar qualquer mínima informação de quem está com o caderninho na mão, fazendo conjecturas sobre o que a gente revela. Pois a psicanalista e escritora Vera Iaconelli se mostra por inteiro no livro “Análise” (Zahar), lançado em meados de 2025. Aliás, em dezembro daquele ano ela ganhou o Prêmio Jabuti com outro livro: “Felicidade ordinária” (Zahar, 2024), uma coletânea de textos publicados na Folha de S. Paulo.
Pois Vera se sentou diante do computador num dia de obras na casa ao lado — que havia acabado de adquirir e colocar abaixo, numa bateção de martelo que ritmava com a sua escrita — para desfiar a própria vida, desde os primeiros anos, passando pelas filhas, pelas mortes dos irmãos, pela raiz biológica perdida da mãe, pelos seus amores e sonhos até aquele momento glorioso de se ver dona das chaves de uma casa parecida com aquela que o pai, com duas famílias e uma existência de mentiras, perdeu na sua infância.
Uma metáfora que me ocorreu sobre o livro é que Vera age como a cobra que morde a si mesma e fabrica o veneno, ao expôr explicitamente as dificuldades que a sua família nuclear e ela enfrentaram em seus percursos solitários e encadeados. O interessante é que, ao rebobinar as passagens, ela já elabora o que passou à luz do seu conhecimento psicanalítico. “‘Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?, teria sido a célebre frase proferida por Freud”, escreveu, certeira, em uma trecho que sublinhei para não esquecer. É um livro para ser revisitado e muito recomendado.
A FORÇA POLIFÔNICA DE NATHACHA APPANAH
Por Julia Casotti
Nathacha Appanah. Espalhe esse nome com muito carinho entre os seus. A jornalista francesa, nascida nas Ilhas Maurício, passou a figurar entre os nomes mais importantes da literatura francesa contemporânea em 2016, quando publicou Trópico da violência. Na época, o livro foi indicado ao prestigiado prêmio Goncourt e venceu o prêmio Femina des Lycéens. O romance, até então inédito por aqui, aterrissa no Brasil pela TAG Curadoria + Paris de Histórias e, se eu fosse você, não perderia tempo: começaria 2026 lendo esse espetáculo, traduzido por Lorena Figueiredo.
Trópico da violência se passa em Mayotte, ilha francesa no Oceano Índico, onde a escritora viveu por dois anos com o marido. Em um cenário marcado pelo abandono e pelas tensões da migração, Moïse é adotado pela enfermeira Marie. Após sua morte repentina, o garoto mergulha no mundo brutal de um subúrbio conhecido como “Gaza”, onde passa a sofrer a influência de Bruce, líder de uma gangue local. A narrativa atravessa temas como pobreza, identidade e violência juvenil em um contexto social profundamente marginalizado.
O mais especial desse romance é a narrativa polifônica que Nathacha constrói em primeira pessoa, a partir de cinco vozes, duas das quais são de personagens mortos. Além de Marie, Moïse e Bruce, o livro traz trechos narrados por Olivier, um policial, e Stéphane, um agente social desiludido. As histórias se intercalam e criam um ritmo extasiante, daqueles que tornam impossível parar de ler. Ao mesmo tempo, cada voz é construída com grande consistência, permitindo que o leitor conheça pouco a pouco cada personagem, ganhe intimidade com eles e mergulhe em seus mundos.
ESTREIA APLAUDIDA DE PÉ
Por Monica Ramalho
Quando livros de estreia me conquistam, sei lá, sinto a força ancestral da literatura. Assim que sou fisgada, me vejo pesquisando tudo sobre aquele nome até então desconhecido. Foi assim com a capixaba Jeovanna Vieira, autora de Virgínia mordida (Companhia das Letras, 2024,), um romance fundamental que fala sobre o amor idealizado, a violência psicológica, o racismo estrutural e a missão salvadora de uma rede de apoio, formada por família e amizades — ainda mais hoje, quando estamos todos um pouco dodóis com a velocidade que o capitalismo impõe.
O livro vem em ondas curtas, facilitando a leitura e as pausas, e sempre nos fazendo refletir sobre os pequenos acontecimentos que marcam a história da advogada negra de sucesso que se apaixona por um ator argentino fracassado. O tanto que ela abre mão de suas vontades por ele e se deixa ameaçar. Os caprichos do macho alfa, a repetição dos erros, aquele encolher-se para caber no sonho do outro que muitas de nós vivenciamos na prática. E como uma terapia pode facilitar os ajustes dentro de nós.
Outra autora por quem me apaixonei no primeiro romance foi Luciany Aparecida, com o seu fabuloso Mata doce (Alfaguara, 2023). É de Luciany um dos comentários da contracapa: “Um livro de pausas, li querendo desler, desviver, ao mesmo tempo que fui seguindo página a página de modo compulsivo. Virgínia mordida é uma urgência, um alerta, um ebó”. Engrosso o coro! Trazendo uma pintura à óleo belíssima de Manuela Navas na capa, o romance foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura antes de cair na rede de uma das maiores editoras do país, que já está com um novo texto da autora no prelo. Toda caixa preta é laranja vem aí.
QUANDO DIVIDIR VIRA GESTO DE BELEZA
Por Julia Casotti
Imagina abrir um livro em formato horizontal e se deixar envolver pela riqueza de cores, texturas e ilustrações criadas pela talentosa Bárbara Quintino? Graduada em design gráfico pelo Instituto Federal da Paraíba (IFPB), Bárbara aposta na criação de narrativas pretas, como a que destacamos aqui no livro Vamos dividir (Pallas Mini, 2025), escrito pelo professor Douglas Belchior.
Na história, Luanda é apaixonada pelo brilho das estrelas, adora observar o céu com os amigos, mas, no fundo, deseja os astros só para si. Quando uma fada-madrinha realiza seu pedido, a menina passa a carregar as estrelas no bolso, enquanto o céu mergulha na escuridão e a tristeza toma conta de tudo, inclusive de seus amigos. Com delicadeza, o livro fala sobre a importância da partilha e da solidariedade, lembrando que coisas boas fazem mais sentido quando são compartilhadas.
As ilustrações de Bárbara Quintino são o grande motor visual de Vamos dividir. Com cores vibrantes e uma estética que remete ao giz de cera, seus desenhos são expressivos, cheios de movimento e emoção. O traço solto e a riqueza de texturas criam proximidade com o leitor e reforçam os afetos da narrativa. A linguagem visual dialoga com a infância sem simplificar, valorizando a imaginação, mostrando que dividir também é um gesto de beleza.
Para colocar poesia na ordem do dia. É assim que se apresenta nas redes sociais o Poesia Livre, podcast feito de forma independente pelas escritoras cariocas Alexandra Maia e Luiza Mussnich, amigas desde 2019. As duas conversaram com Monica Ramalho, uma apaixonada por poesia, e você pode ler a reportagem completa no PublishNews. Também vale já pular pro podcast delas!
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Lella Malta, idealizadora do Elas Publicam, anuncia novidades para 2026. Criada para fortalecer a presença e o protagonismo das mulheres no mercado editorial brasileiro, a iniciativa amplia sua atuação e passa a funcionar também como prêmio e canal de notícias, além de seguir como um dos principais encontros presenciais do setor. Leia a notícia toda no PublishNews.
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Cheiro de livro e café especial: amamos. A Lúcia Livraria é uma das novidades do verão de Iriri, litoral sul do Espírito Santo, estado natal da Julia Casotti! A publicitária Elisa Quadros está à frente da empreitada, e se inspirou no nome de sua mãe para abrir a charmosa livraria, de frente para o mar. Lúcia vem do latim e significa luz; foi ela quem transmitiu a Elisa o amor pela literatura. Vale a pena a visita!
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A influenciadora Maria Ferreira criou a planilha África Impressa, uma lista com mais de 200 livros de autores africanos e com ascendência africana, traduzidos e publicados no Brasil. A África é um continente diverso, com 54 países e mais de 2 mil línguas. Com a lista, Maria nos ajuda a conhecer a diversidade de culturas, línguas, histórias e filosofias de um continente frequentemente reduzido a estereótipos negativos.
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Amei a newsletter!!! Quantas informações relevantes e saborosas ❤️
Muito bom conhecer o trabalho da Ester Lima!